quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

FELIZ ANO... NOVO?


Mais um ano que chega ao fim. Com ele muitas promessas que ficaram em segundo plano e suas muitas vicissitudes. Não há nenhuma novidade nesta questão pela simples ambiguidade da coisa. Tudo que vai, volta; todo começo tem um fim. O grande mote fundamental é: onde começa? Aonde vai terminar? A partir desse pressuposto o incomensurável se torna ardil e maravilhoso.

Falemos do ano que se passou num presente contínuo, no futuro do pretérito, num passado tão recente que ainda podemos tocá-lo antes que se despeça. É o que a vida faz de melhor. Ela nos dá experiência, amigos, amores, filhos e – claro! – cabelos brancos. Neste último ano tínhamos cabelos menos grisalhos, preocupações mais ponderadas, percalços diminutos pela força dentro e fora de nosso espírito. Engraçado que nesses últimos dias quisemos terminar com grande afã o que não tivemos nenhuma pressa nos outros onze meses. Foi mais uma ocasião de se despedir de entes que fizeram sua última viagem, de dar boas vindas a quem chegou repentinamente sem avisar, de olhar nos olhos de quem amamos há muito tempo e não proferirmos uma única palavra, apenas gestos silenciosos de carinho. Sem falar na perspectiva platônica do desejo frustrado, no corre-corre cotidiano, na beleza da chuva e na tormenta das tempestades que nos deixaram inertes. 

A noite anterior despencou em uma catarata de emoções nostálgicas. Contamos os últimos segundos rememorando o que vimos na televisão, as noites curtas do amor carnal, o tabagismo ocasionalmente oportuno, a promiscuidade, a insensatez, a infertilidade do egoísmo. Deixamos escoar pelos dedos os minutos finais dos dias dionisíacos de liberdade, das discussões calorosas e desnecessárias, dos beijos inesperados, da embriaguez imoderada e (sobretudo) das intensas tragédias episódicas que vivemos. Ninguém saiu incólume. Contudo, fomos além – muito além – e, ao deixamos partir as lembranças, contemplamos com afinco a virada da maré.

Esse ano que se despediu pode ter sido muito promissor ao passo que demasiado derrotista. Não é fácil calcular quantos maços de cigarro nós compramos, quantos cafés, quantas cervejas tomamos, quanto gastamos com bobagens e quanto guardamos em espécie para não sermos abocanhados pelo consumismo desenfreado. Mas não é preciso ser economista pra enxergar o quanto gargalhamos e o quanto fomos felizes. Pior ainda se imaginarmos quantas lágrimas caíram e pra quanta gente demos uma “forcinha” nas adversidades. 

Entoamos uma canção todos os anos sobre o “capitalismo selvagem”. Mas essa condição humana e essa barbárie que nos egressa para um estado hobbesiano total de natureza não é – nem de longe – culpa direta do capitalismo, mas das nossas ações, do que aceitamos docilmente, do que resolvemos deixar pra lá porque a peleja era muito exaustiva. 

O ano de 2013 não foi o leito de um rio menos violento, nem a água límpida e branda de uma praia paradisíaca. Ele foi sem dúvida o que não seria de outra forma: um pouco mais de vida no tempo sombrio dos Homens. E o próximo ano já está aí novinho em folha, nele depositado a esperança como a única coisa que restou na caixa de pandora. Até poderíamos arriscar em dizer que ele é um livro com páginas em branco esperando para ser cunhado a ferro e fogo. O que remanesce na gente é se iremos gravar no decurso do novo ano os nossos heroísmos ou a nossa inglória. Enfim... Meu desejo para esta nossa nova etapa é simples, mas exageradamente laborioso: humanidade, uní-vos!

A todos um feliz e próspero 2014!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012




QUALQUER ENTENDIMENTO DESNECESSÁRIO



Não entendo porque me reservo tempo
Tantos minutos, horas nem tanto
E conto nos dedos os segundos mágicos
Como se a rua em encruzilhadas tântricas
Fizesse nós nas pernas da avenida nua.

Paro o lápis antes do rabisco
[a caneta antes do borrão]
Não tenho medo do vazio que consome
Mas do terror no amanhã da palavra dita
Textos, cadernos, sussurros e gozos
A silhueta atrás do véu da noite se insinua
O sabor salgado se misturando à doçura.

Sinto então tua face frágil e cálida
Fervendo de pudor e mergulhada em timidez
O altivo desejo, insumo de qualquer pudor
Teu sugar, tua língua voraz num mel de volúpia
Sobre mim a humanidade e o teu poder
Nenhuma nudez será castigada no velho Rodrigues.

Os gritos. Os gemidos. Os movimentos truculentos
Espasmos, escárnios, mordidas, estocadas
O que restará antes do fim da poesia?
Lembranças, sorrisos, suores, bocas molhadas
Depois a inquietude, depois 
... Apenas silêncio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SOMBRA NO CREPÚSCULO...


Melissa estava cansada do silêncio. Era hediondo, perturbador e profundo. Um silêncio que vinha do lugar mais remoto da terra: a alma humana. Mas não era só isso, ela estava num crescente estado de pânico. Noites mal dormidas. E aquela quietude abismal que a destruía. Nem ao longe, sequer um único som retumbava. O som de um carro, vozes de estranhos, passos de transeuntes, nada ressoava na escuridão que a violentava. Melissa apenas podia sentir a garganta cada vez mais seca.

A madrugada avançava e Mel ora fitava o teto, ora rolava na cama. Levantou-se finalmente. Abriu a gaveta e com ajuda de seu abajur velho ela folheou indiscriminadamente bulas e receitas médicas em busca de algo que lhe devolvesse o sono ou a reconfortasse das lágrimas e do infortúnio. Entre os papéis estavam todos os seus exames de rotina; cardiovascular, cardiorrespiratório, eletrocardiograma, eletro-encefalograma, audiométricos, entre tantos outros. Tudo estava em perfeita simetria. Para melissa não existia nenhum distúrbio que explicasse aquela sensação de um frio intenso capaz de rasgar seu corpo ao meio. Não havia nenhum mistério além de uma certeza iminente.

O que mais a irritava eram os remédios psicotrópicos receitados pelo seu psiquiatra. Ele dizia que o grande mal daquela pequena era o mesmo mal que assola a humanidade: a insônia. Mel odiava-o com todas as suas forças, porque sabia que toda vez que ficava sozinha com ele a conversa ironicamente se inclinava aos apetites sexuais daquele senil. Suas mãos rançosas e ásperas lhe davam náuseas. Melissa discordava da loucura em que se via mergulhada. Diagnóstico clínico: esquizofrenia. O esfalfamento a engolia e o dia-a-dia fazia aumentar sua austeridade e tornava sua polidez cada vez mais diminuta.

Melissa abriu a geladeira. Sorveu um litro de água em longos goles. Nenhum efeito. A sede aumentou. Ela abriu o freezer e viu uma garrafa de uísque comprada há meses. Ainda estava lacrada. Arrancou ferozmente o lacre com tampa e tudo. Bebeu quase meia garrafa num único gole. Nada. Outro trago de uísque. Mais longo, amargo, pungente. Sua cabeça girou e ela caiu sobre a cama enquanto ouvia a garrafa se despedaçar no chão. "Vá se foder" ela gritou para si mesma. "Sua burra". 

Melissa sabia que aquele silêncio apavorante não era habitual, não fazia parte da noite, nem da calmaria da cidade quando dorme. O silêncio era a voz do demônio espreitando a alma, oferecendo a ela o evento mais deprimente da vida: o espetáculo da morte.

Ela tinha certeza mais do que ninguém sobre o vazio que rondava seus dias. Pessoas cochichavam atrás das portas, esquivavam-se de conversas íntimas e abraçavam-na como se fosse o último adeus. O tempo era cinzento e pesado como chumbo e dentro dela o amargor consumia seu espírito. Sua cabeça era uma tempestade.

Pesarosamente Mel caminhou até o lavabo desviando dos cacos de vidro. Olhou-se no espelho. A palidez não mais a incomodava, só o maldito silêncio. Ela então lavou as mãos e o rosto, abriu o armário do banheiro e pegou dois comprimidos. Um analgésico e outro antidepressivo. Tomou ambos de uma vez. Voltou a olhar-se no espelho. Procurou em vão algum fio de cabelo que lhe restasse da quimioterapia. Porém, Mel nem via mais seu rosto, apenas o de um esqueleto com pedaços de pele putrefata. Suas entranhas estavam abertas e suas vísceras dependuradas. Melissa coçou os olhos. As entranhas doíam e continuavam a escapar para fora do ventre. Parecia real. Ela não estava louca. A visão do noivo indo embora com outra mulher lhe atormentava tanto quanto as ligações em vão para amigos que desapareceram. Sua vida tinha sido desperdiçada. 

Ela nada fez senão contemplar sua hora. Desistiu de lutar e se entregou completamente à fatalidade. Suas roupas estavam ensopadas de sangue coagulado. Mas era belo saber que somente o som do vento soturno poderia acalentar seu desassossego. Melissa soltou a faca e virou-se abruptamente abraçando sem medo quem tanto a esperava atrás das sombras do crepúsculo. Seus pulsos adormeceram. Seu corpo e sua mente saíram de sintonia. Restou o sorriso e o lamento.

“Enfim sós, meu amor”. Era o sussurro que enfim rompia o silêncio e o drama. “Venha, vamos dançar nossa valsa.” Insistiu a morte esticando seus braços esqueléticos para melissa. E dançaram engalfinhados em direção ao infinito. No meio do quarto um corpo tombou sem vida. Ela finalmente estava livre.

quarta-feira, 6 de junho de 2012


ANA (SEUS LÁBIOS SÃO LABIRINTOS).








“Meu Deus!” Eu pensei quando despertei do sono profundo. Ela estava ali, simplesmente nua. Coloquei as mãos na cabeça e me sobreveio a mais triste indagação: “o que eu fiz?” Na boca o gosto forte de bebidas e cigarros. Na cabeça a fúria dolorosa de uma noitada de sexo, drogas e rock’n roll. Não é apenas um jargão, nem um clichê em desuso. Era a mais pura verdade, a mais vívida das perversões.


O ato estava consumado e tudo estaria bem depois de muita água e analgésico, não fosse pela realidade nua e crua que se apresentava. Ninguém sabia nossa história, se é que tínhamos alguma. Não sei dizer se ora éramos amigos, ora amantes, se nosso sangue era de irmãos ou de almas extremamente errantes. 


Eu não conseguia se quer olhar para ela, tão linda e desnudada e tão bucólica. Seria a paixão uma forma arrebatadora de pagar nossas iniqüidades ou nela protelar nossa redenção? O cheiro me dava náuseas e as marcas que deixamos em nossos corpos a grande repulsa. Tudo que vivemos numa noite era mais do que meras impressões. Afrontamos o sagrado e nos deleitamos do profano.


Corri para o banheiro e deixei que água escorresse por meu corpo. Eu queria lavá-lo, apagar o que de maléfico e malicioso nele ficou tatuado. A mente turva e corrompida não tinha como ser expurgada de seus terrores.


“Vem brincar com o papai”. Era o sussurro dele de volta a me assombrar. Mas ninguém mais me tocaria se eu não permitisse. E eu jamais colocaria numa bandeja de prata a juventude de quem quer que fosse, a inocência dos igualmente vulneráveis. Sentei no chão do banheiro e chorei. “Mamãe não está mais aqui”. Onde estará?


Respirei fundo e me levantei enfático. “Hoje não”. Desliguei o chuveiro e descalço tateei a parede procurando a toalha. Ela jamais me veria nu novamente. Nem nu, nem rijo, nem com qualquer vestígio de um desejo carnal. 


-- Ana! – chamei-a como o algoz.


Silêncio.


-- Ana!


Lancei-me quarto adentro numa busca feroz. A casa estava tão vazia quanto meu gene egoísta. A porta da rua – entreaberta – era um claro sinal de fuga. E ficou a sensação nítida de uma alma fugindo de si mesma. Do que fizemos. Dos nossos pecados e da nossa insensatez.


Dos meus pais a lembrança do enterro da própria mãe, do pai beberrão culpado de minha puerícia rasgada com a tênue gilete que cortava borboletas. Um prodígio vendido como boneco de porcelana. Nem a morte me queria, então matei o meu torturador e escondi-me durante anos na figura de um pai ausente. Hoje descobri que tinha descumprido a promessa de não ferir mais ninguém. 


Ana. Seus lábios são labirintos.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

POESIA




ERÓTICA


Incêndio no fogo brando
Bocas pérfidas e línguas nuas
Beleza crua. Na pele tua
Meu perfume (habitat)
No fundo das nossas carnes
É como me sinto quando te possuo
É ardor quando teu desejo vive em mim
Amor fugaz. Silêncio insano dos atrozes
O que somos um para outro?
Das paixões os albatrozes
Vamos nos comer e nos consumir até que morte
Até que a morte nos separe,
E rasgue-nos ao meio com teus trovões
Antes da alegria a tristeza personifica
O apego é isto: saúde e doença e tempestade.

II

Vejo-te a olhar-me quase desfalecida
Angelical e demoníaca enquanto suga
Molha, sente, goza e gosta. É paradoxo
Pede mais até que eu perpetre o crime
Teu prazer; barbárie que me agasalha
O sorriso - servidão e solidão que engana
Assim eu sigo o ritmo do vaivém inteiriçado
Dentro de você é estar mais dentro de mim
Quanto mais intenso, mais gritos, mais ofensas
São nossos dias dionisíacos. Ciclos vitais. Afrodite.
Então eu derramo em ti a seiva que precede o fim
O mesmo fim de todos os dias na mesma cama.

III

Na tua face ardente fica o beijo
A despedida, o sussurro, o arquejo
Tuas mãos perdem-se em meus dedos
O abraço e o calor se desmancham no ar
Fenecer do rito, tragédia dos impudicos
Eu – o sagrado e o puro que profana.
Tu – tímida e despudorada que inflama.
Sempre erótica 
Sempre louca 
Sempre desnuda
Sempre.







segunda-feira, 30 de abril de 2012

XEQUE-MATE!

Talvez eu esteja me enganando. Ou quem sabe tenha colocado na lata do lixo todo um tempo estimável do qual eu poderia ter construído um pensamento análogo à grande maioria das respostas que busquei para acalentar essa alma medíocre e duvidosa. Mas, ao contrário disso, este mesmo tempo valoroso se pauta e se perde numa explicação que talvez nem fosse necessária. 

Falar de amor como uma bula farmacêutica e se referir ao sexo como se fosse um produto enlatado e empilhado numa prateleira de supermercado é fácil. Facílimo. São valores diferentes e também tragicamente indistintos. Quando entramos num círculo vicioso e esse ciclo se torna um paradoxo, sempre dá merda. Sempre.

Explicar como fazer amor numa cama onde só se enxerga sêmen e clitóris, rascunhando, detalhando minuciosamente as picardias mais sórdidas da juventude é algo que beira o ridículo. Hoje as pessoas podem me rotular de qualquer coisa: perverso, altivo, maldoso, mesquinho, talentoso, sexólogo, poeta, sedutor ou nenhuma delas. 

O fato é que nesse momento pouco importa o que pensam de mim ou da maneira como procuro no sexo uma representação profícua e ao mesmo tempo libertária da hipocrisia de alguns ou tantos elementos que norteiam o medo por trás da nossa sociedade mentecapta. 

Façam suas apostas que até o fim dessas linhas muitos acharão o cúmulo a minha mania grosseira e tempestuosa de tocar num assunto tão delicado aos olhos dos ignóbeis e dos românticos. Contudo, podem escrever meu nome na lista dos criminosos passionais (nem ligo), só peço que moderem a relevância acusadora, afinal, felizmente - e sem exageros - ninguém morreu (nem morrerá) por aqui.

Acordei de súbito esta manhã, sobressaltado com o telefone berrando estridente na minha pobre cabeça. No primeiro "alô" uma voz feminina dispara a fatídica pergunta sobre uma recém-postagem publicada em meu blog:  "sua narrativa é uma crônica, um manifesto, um desabafo ou uma declaração afetiva"? Respondi sem hesitar: as quatro definições são apropriadas, passe bem. Desliguei e voltei a dormir.


------------- POSTAGEM ORIGINAL-------------

Seu corpo estava lá, deslumbrante e desnudo, no modo "stand by", esperando que eu a possuísse com o mesmo amor irrisório com que havíamos nos conhecido há poucos dias. Ela era a única tola, personagem burra daquele enredo patético. Mas o jogo da sedução é uma merda, porque sempre um dos lados confunde emoção com relação. E ambas estão ligadas por uma tênue linha que divide os verdadeiros amores das paixões falsas. 

*Vivian queria minha alma mais do que simplesmente um símbolo fálico em sua vida, ela almejava minha mente, meus sonhos, meus ideários. Até esperava que fôssemos amantes eternos, nascidos de um romance shakespeariano. Balela. Tudo bobagem. Para mim os órgãos genitais eram ícones isolados, objetos no processo reprodutivo dos Homens e além do mais eu nunca tinha conhecido ou havia experimentado o sabor dos dramas de uma realidade romanceada, eurocêntrica e egocêntrica (até rima!), eternizados para sempre entre os séculos da nossa história. Eu só conhecia a palavra "gozar". Em outros desdobramentos, sinônimo de prazer desmedido.

Na minha cabeça passava o trailer de um sexozinho de fim de noite. Uma boa transa de fim de semana. Mas como certas doçuras de pessoas como ela conseguem estragar finas teias de clímax, me desinteressei quase que irredutível e imediatamente. O que mais me causa o tédio é essa coisa de apaixonar-se perdidamente dentro de uma boate onde todos procuram a mesma coisa: sexo sem compromisso.

Nesse contexto de namoricos, de idas e vindas, eu me assemelho a uma rocha. Era óbvio que não estávamos na mesma sintonia, nem falando a mesma língua. E todos sabem que casais que vivem fora do ar, em geral, terminam em guerra como todas as outras relações sociais amalucadas. Estar ali, dançando, para mim era apenas desculpa para umas cervejas e uma noite de sexo indiscriminado. Esbarrei com ela, trocamos olhares profundos e incertos. Então veio a fusão entre o corpo e o desejo, engalfinhados numa ferocidade como a de Kali e Shiva. Quando a madrugada avançou nos entregamos à devassidão e fizemos amor. Amor? Não, isso com certeza não fizemos.

Vivian tinha um olhar de menina, um olhar de quem queria descobrir um mar de emoções. Era o famoso "dia seguinte". Ela não sabia que minha personalidade era um deserto árido naquele instante. Os telefonemas fora de hora, as carências afetivas, os choros no portão da minha casa, minha mãe querendo saber quem era a garota mais triste do mundo que me esperava pacientemente todas as tardes, escondida do outro lado da rua. Era entediante. 

Nossos encontros me davam sono. E como dispensar alguém tão emotiva sem a chatice do fim de uma relação que, diga-se de passagem, nem existia? Meus queridos amigos diziam que era amor. Mas eu sabia que no fundo, ela ainda carregava o complexo de electra (ou pré-edipo) e via em mim a figura paterna que foi ausente em sua infância. E olha que tínhamos idade para sermos irmãos. Somente irmãos. Talvez eu a visse desse jeito, como uma irmã chorona e birrenta. Eu sempre fui um pouco intolerante e turrão, não achava graça em quase nada. Vivia nos botecos enchendo a cara e me metendo em confusão. Nossos mundos eram flechas atiradas em direções opostas. Quem iria acreditar que daria certo? Todos a minha volta, sem exceção. Menos eu (é claro).

Nossas pessoalidades divergiam sempre. Foram inúmeras separações e brigas. A verdadeira guerra dos sexos. Meu pai se divertia com minha desastrosa, mas famigerada vida amorosa. De cara fechada e rústica, eu tinha certeza dos laços afetivos lacônicos. Tinha raiva de ter ido à boate naquele dia e ter ficado dançando como um bobo na frente daquela maluca de sapatilha vermelha e vestido florido. Mas ela era linda. Sempre foi. As pessoas me paravam na rua e diziam que eu tinha sorte e devia aproveitar com Vivian o que a vida estava oferecendo. Nem todos os casais são felizes. Eu queria mesmo era minha vida de solteiro fanfarrão de volta, minhas efemeridades. O sexo daquele dia foi incisivo e decisivo no que se refere a ter sempre a mesma companhia, um jeito único de deitarmos na cama de casal. Ela de conchinha e eu espaçoso feito uma mula. Mas e daí? Hoje faz quinze anos que estamos casados e temos filhos lindos. No fim desse jogo amoroso ela me venceu: um feliz xeque-mate!

*Nota: Vivian é uma personagem fictícia, mas que personifica laços que me uniram à minha atual esposa, uma pessoa real. Apenas não usei o nome dela por questões éticas e processuais. Agradeço a compreensão.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011



ANTECIPANDO OS VOTOS DE ANO NOVO: 

Resposta à carta de uma amiga


Esta semana encontrei em casa uma correspondência perdida desde os primeiros dias de 2011. Estava ali, lacrada, intocável e virgem, mas irredutivelmente querendo me dizer alguma coisa protelada – talvez acidentalmente – durante onze meses. Pensei em esperar, pacientemente, até ela aniversariar seu primeiro ano. Daí eu faria um bolo e cantaria “parabéns pra você...” Contudo, deixando de lado o mau gosto da piada, além de não ter apreço por rituais inúteis, eu também gostaria de saber quem era o remetente que infelizmente ficou quase um ano sem resposta. 

Abri. Olhei, respirei fundo e reli com calma: feliz ano novo. Que o ano que agora nos invade, seja repleto de alegrias, prosperidade e esperança. Beijos da sua amiga fulana de tal. Bem, de esperança e sonhos nos enchemos em todos os réveillons, pelo menos assim tem sido nos meus últimos trinta anos. Tudo que peço depende da prodigalidade das decisões que tomo e por isso mesmo só faço pedidos pra não quebrar o protocolo, o resto é fruto da minha própria responsabilidade, de como executo as minhas ações. 

Ler atrasadamente estas aspirações, a mim endereçadas, deixou-me num envoltório de júbilo. Já que embora eu não soubesse que durante o ano perdurou de outrem uma vontade inequívoca de dias que me impelissem ao belo, vivi intensamente cada peleja cotidiana. Talvez eu não tenha sido a melhor pessoa do mundo, afinal, posso ter recusado qualquer devida importância à ascensão da mulher na política nacional e ao papel do feminismo, ou sequer me esforcei para sentir o perfume das flores revolucionárias da primavera árabe, nem insisti em refletir sobre a fragilidade mundial e a decenal fissura – hoje abismo – do imperialismo, os tsunamis e as chuvas sob nossas cabeças, a morte emblemática de um inimigo singular contra o ocidente, o casamento da realeza britânica; não meus caros, eu não fiz nada disso – nem de longe. Apenas contemplei uma flor que nascia no asfalto, a menina sem pátria que brincava venturosa embaixo do esguicho do chafariz, chorei o descaso e a miséria, fiquei desgostoso da política adúltera e injustificadamente corrupta deste país, entristeci-me das destemperanças e da falta de calma do intempestivo. Em contrapartida eu sorri e sorri muito, gargalhei até virar às avessas, tirei sarro das tragédias – ninguém é de ferro – e colhi delas as experiências mais fecundas. O ano de 2011 que se esvai, posso afirmar: foi surpreendentemente um dos mais excitantes. 

E eis aqui a resposta atrasadíssima à minha querida amiga: “feliz ano velho colega. Pois este ano, que da mácula à quimera gastou desapiedado o seu ineditismo ao longo dos dias, realmente foi próspero, alegre e esperançoso como você previu e muito mais adjetivado com definições boas e razoáveis – alheias ao que eu desejei de fato. Provavelmente responderei à sua nova missiva de boas festas no ano que vem, mas quando este já estiver perto do fim.” Como disse antes, não gosto de rituais. Mas este de “esquecer” será uma exceção. Feliz 2012!

sábado, 10 de dezembro de 2011

AMIGOS TRANSANDO PRA VALER

QUANDO O NÃO-AMOR ACONTECE.




Por um momento a idéia parecia perfeita. Transar com minha melhor amiga. Melhor amiga? Sem essa, homens não tem amigas, tem contatos e oportunidades. Somos eternos oportunistas. Sofrem os tolos que se entregam – em sua totalidade – a tais tipos de amizade. Substitua a palavra “amor” pela palavra “tesão” nas intenções com uma amiga e verá o quanto é bom quando em certas épocas da vida não se precisa amar totalmente para se ter um pouco de prazer. Em algumas situações o apego é a entropia do afeto, é desperdício de tempo na efemeridade da cobiça. Não que eu esteja sendo machista (estou sim, eu sei), mas homens, verdadeiros machos alfa não têm amizade com o sexo oposto. De forma nenhuma, não mesmo, ainda que sejam as “coleguices” mais improváveis. Contudo, a proximidade que exercíamos do mesmo modo e no mesmo lado da moeda era singular e exagerada. Na realidade uma ligação tão perigosa que deixarei qualquer explicação em aberto. O amor tem e não tem fronteiras. Mas sempre terá suas próprias razões.

Eros discorda. Storge também.

-- Ana você pode vir pra cá hoje a noite?

-- Sim Leo, mas... Aconteceu alguma coisa?

-- Não exatamente.

-- Desembucha aí vai... Já até imagino! – ela riu.

-- Eu quero beijar sua boca, como ontem.

-- Ontem não nos beijamos.

-- Mas queríamos.

-- Queríamos?

-- Sim. Eu pelo menos estava fervendo de... De...

-- De?

-- Você vem?

-- Você me quer?

-- Ana, eu não sei o que estou sentindo, mas está me corroendo. Só de falar contigo minha perna treme.

-- Você me ama?

-- Não.

-- Pretende amar?

-- Acho que não.

-- Está apaixonado?

-- Estou... Terrivelmente... Mas eu sei que as paixões acabam rápidas e são tão violentas quão grandemente o são os mares bravios. Quanto antes acabarmos com ela, menos estragos veremos e sentiremos.

-- E se eu me apaixonar?

-- Nos apaixonaremos juntos.

-- Tem certeza?

-- Não existem certezas.

-- Ok. Estarei aí por volta das oito da noite.

-- Combinado.

Eu e Ana éramos assim. Cínicos. Talvez nos amássemos de verdade. Só faltava ainda descobrir. Todavia, ainda não estávamos prontos para quebrar duas, de três regras: tudo no sexo, nada no amor. E a paixão arrebatadora que sentíamos? Os beijos molhados, as línguas sentindo todos os sabores e saberes do outro, as mãos, as carícias, o tateio, a falseta; e o coração palpitava sempre, descontrolado, descompassado, impulsivo, entregue, fugidio. Se um abismo existia, cada vez mais íngreme e errante, sabíamos. Queríamos. Éramos escravos.

Perto das sete horas da noite eu despertei no sofá. Um sábado como qualquer outro: mensagens no celular, baladas à vista, amigos à espreita, cansaço da semana terrível no trabalho, os costumeiros programas decadentes da televisão. Dias enternecedores. O sol ainda estava alto no horário de verão. Um calor gostoso de fim de tarde, leve zéfiro sob as casas pacatas, nuvens de uma chuva passageira, cheiro de chão molhado e os carros, que buzinavam ao longe, parados no farol em algum lugar qualquer de Santo André no ABC Paulista. Meu refúgio sombrio, essa era minha especial zona de conforto.

Subi até o andar de cima da minha casa e fui ao closet, meu solo sagrado. Sentei no tapete e fiquei imaginando o que vestir. Nunca me preocupei em estar arrumado pra ela, não precisava ser bonito ou ser qualquer coisa, bastava a sensualidade do mergulho nos nossos instintos primitivos. Mas não sei, estava dúbio, desorientado, irrequieto. Espelhos davam-nos náuseas. Davam-me. Com certeza. Era cada vez mais cíclico. Escolhi um jeans batido, uma camisa pólo – modelo que adoro –, um belo par de sapatos e borrifei pelo corpo o suntuoso acqua di gio de Giorgio Armani.

Já eram nove horas e nenhum sinal de Ana. Um estranho sumiço. Agonia. Ansiedade. Porra, aonde diabos ela tinha se metido? Eu estava aborrecidíssimo. Demasiado irritadiço com aquele figurino de palhaço. Parecia uma situação injusta.

Toca meu celular.

-- Oi Leo.

-- Ana, onde você tá? – tentei me controlar.

-- No portão. Faz-me a gentileza de abrir?

-- Claro.

Não preciso dizer que ela estava magnífica. Um vestido branco que parecia sugerir pureza, uma impressão também de vazio e de infinito. Suas sapatilhas azuis destoavam, evocavam o frescor de um perfume inebriante e do doce e tristonho mel de seus olhos.

Caí dos devaneios quando vi sua calcinha transparecer. Era renda, sim, uma renda frágil e pequena, com estampas discretas que falavam através da minha curiosidade. Fulgurantes. Cantantes. Sorriam pra mim e diziam: “tens aqui as entradas para o teu prazer”. Era o canto do mais puro sentimento libertino. Ana sorriu, me deu um longo beijo na boca e disse em alto e bom som que eu estava bem perfumado. Aquilo foi de fato mais incomum do que se parece.

Ana tinha fome. Fome de comida, fome de sexo, fome de amor. Cada coisa em seu lugar e cada coisa de cada vez. A primeira fome saciamos com duas belas caixinhas de comida chinesa delivery. Esquecemos do mundo, da etiqueta e comemos como duas crianças. Rimos, brincamos, fizemos lambança. E então ela teve a brilhante idéia de colocar seu vestido pra lavar. Amizade colorida era assim, mas o que abalava a minha sanidade era a naturalidade forçada que desde o princípio eu não havia notado. Não havia ali apenas eu e ela, nos fazia companhia os fantasmas da psique humana, com eles seus medos, suas neuroses, suas vontades inequívocas. Pena que só eu – sem nenhuma certeza – tinha desnudado esse véu.

-- Que foi? – Ana me perguntou já de calcinha e sutiã.

-- Nada.

-- Não gostou da minha roupa de baixo?

-- Eu adorei. Só tô curtindo seu visual. Hoje você está muito sensual, mais do que de costume. Eu diria... Hum... Incrível!

-- Nossa... Estou chocada... Você não disse nenhuma vez a palavra gostosa, tesuda, bucetuda...

-- Chega! Você merece mais do que esses adjetivos idiotas... Vem cá...

Seus lábios eram néctares. Senti sua saliva, seu salivar endeusado, suas inefáveis picardias. Era um sentir deveras sublimado. Suas mãos abriram meu zíper enquanto sua boca queria engolir-me e eu a ela. Segurei-a pelos cabelos, tirava-os da frente para enxergar o vaivém do inteiriçado. Quase um gozo. Fechei os olhos. Deixei que o sonho me tomasse por completo.

Arrastamo-nos para o quarto. Mordi o bico dos seios pontudos, apalpei-os, deixei a língua tomar vida própria. Procurei seu sexo. Estava nua. Em corpo, alma e pudor. Completamente despida. Por dentro Ana fervia, soltava seu primeiro gozo, viscoso e terno. Não perdi uma gota, sorvi tudo com volúpia. Meu membro latejava. Precisava deixar fluir a seiva do orgasmo. Lancei-a ao chão com a força do algoz, quase corrupto, quase insano e angustiado pelo desejo impetuoso. Queria invadir-lhe como um ladrão e então lhe penetrei; duro, maciço, indelével, implacável. Cada estocada um grito meu e dela. Cada grito, uma sensação desastrosa do desassossego de quem sabe amar e não pode e de quem pode amar e não sabe. Ana entregara sua carne para o deleite – não apenas próprio –, enquanto sua alma em todas as ocasiões como esta era brutalmente violentada pela fome de amor.

-- Quero mais.

-- Quer mais sua safada?

-- Quero tudo.

-- Tudo?

-- Até o talo. Se é pra me foder, me fode direito, direitinho...

-- Assim?

-- Mais forte... Mais forte, vai! Vaaaiiii!

-- Eu vou gozar sua puta... Isso... Hummm...

-- Goza na minha boca... Goza tudinho, quero beber sua porra até o fim!

Fiquei alguns minutos fitando o teto. Assim acabavam nossas paixões. Um murmúrio soturno, água descendo pelos canos da pia e do ralo do chuveiro. A descarga da privada e o monólogo monossílabo de sempre.

Então, finalmente envolto num manto de astúcia e coragem, rompi com a tragédia.

-- Vou indo.

-- Espere Ana, quer que eu te leve em casa?

-- Não precisa.

-- Precisa sim. Quero lhe dizer uma coisa... Venha, vou pegar as chaves do carro e te digo no caminho.

O silêncio da viagem narrava um fato inconfundível: o amor e o desafeto que experimentávamos. Novamente eu rasguei a cortina do costume e insisti numa conversa que era na verdade uma batalha entre desiguais.

-- Ana eu acho que ultrapassei os limites da paixão...

-- Você me ama?

-- Sim. Sem dúvida que a amo como nunca amei ninguém.

-- Então as regras foram quebradas. É melhor pararmos por aqui.

-- Mas... – segurei a lágrima – se nos amamos... Você também me ama, né?

-- É complicado.

-- O que é tão complicado pra você? Eu sinto que isso que estamos vivendo há tanto tempo parece tão bom pra gente. Você antes saía tão feliz, sempre me ligava depois, trocávamos e-mail, íamos a tantos lugares, fazíamos tudo juntos...

-- Exatamente... Tínhamos uma relação desde o início e por isso as regras nunca existiram de fato, somente e exclusivamente a terceira, mas eram limites tolos que jamais impediriam qualquer transgressão. O que você nunca percebeu é que eu estava tentando ser sua amiga, te dizer que não daria certo porque eu não o amo, não como poderia. Somos amigos de longa data, longuíssima, transamos, bebemos, saímos, confessamos, estivemos até fora da lei. Mas, meu querido entenda,  jamais nós fomos um casal. E jamais seremos.

-- Por que não?

-- Não sei. Amo outro homem.

-- Não ama não.

-- Mas amarei um dia. E quando este dia chegar, quero estar bem longe de você. Você é puro tesão, puro desejo, pura carne e é só isso que é. Não sei o que te deu hoje, se foi o sol, a lua, a bebida, a solidão, qualquer inferno desse mundo, posso apenas crer que você está fora de si. Vá pra casa, tome um banho, durma e amanhã será um novo dia.

-- Um novo dia?

-- Um novo dia sem mim. Você nunca mais me tocará.

-- Sem você eu não existirei mais.

-- Que assim seja então e não será nunca de outra maneira. – foram suas últimas palavras antes de descer do carro.

Sangue do mesmo sangue. Apátridas. Jus sanguinis. As esquinas da história nos dividiam e uma casa não nos deixava separar. Os ventos já prenunciavam tal fim, não menos intempestivo. A paz que busquei nesse amor bandido se chamava liberdade. Spinoza disse certa vez que “se a paz tem de possuir o nome de servidão, solidão e barbárie, nada há mais lamentável para o homem do que a paz.” Ana e eu tínhamos muitos segredos execráveis e muitas guerras ocultas insolúveis. Nosso amor era – de longe – o mais desprezível. Para que fôssemos fortaleza um para o outro não deveríamos ir além do sexo e da amizade inventada. Ana entendeu Friedrich Nietzsche antes de mim. Jamais nos amaríamos pra valer naqueles dias escuros.

“Existe realmente aqui e além na terra uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo experimentado por dois seres dá lugar a um novo desejo, a uma nova cobiça, a uma sede comum e superior, de um ideal que ultrapassa a ambos: mas quem conhece esse amor? Quem viveu? Seu nome verdadeiro é amizade.” (Nietzsche).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

NATAL: 

CARTA AO MEU BOM VELHINHO

Todo ano é sempre a mesma coisa: eu escrevo para o Papai Noel e começo minha ladainha dizendo que fui um bom menino durante o ano. Deus e o diabo sabem que estou mentindo descaradamente sem nem ficar vermelho. Esse é um ritual que me dou ao luxo de fazer todos os anos, nos últimos trinta anos. Nunca recebi nada, nem resposta, nem presente, nem mesmo uma banana como a que ganhamos em época de eleição. Contudo, este ano resolvi fazer diferente, começando por dizer a verdade e eis minha niilista missiva: 

Querido amigo Nicolau, confesso que fui um garoto ruim (péssimo) este ano. Em muitas ocasiões cortei fila no banco, buzinei no trânsito – sem necessidade –, recusei dar esmola aos necessitados, briguei sem motivo, fiz greve de carinho, ofendi pessoas que amo, bebi além da conta, fumei escondido no banheiro, continuei guardando revista erótica debaixo do colchão, falei mal do meu chefe pelas costas, sacaneei meus amigos do trabalho, fiz piada maldosa – mas que fique claro que eu me arrependi depois –, espiei a vizinha trocar de roupa inúmeras vezes pela manhã, enfim, não resisti à quase nenhuma tentação. Por esses e outros motivos decidi não tentar tapeá-lo – meu doce senil. Até porque, se perdi minhas vãs esperanças nos últimos natais, tenho certeza que a culpa não foi sua Papai Noel. Apenas minha, dos meus deliberados excessos e da minha egoísta vaidade.

Contudo, não vim aqui para me desafogar das mágoas debruçado sobre verdades tão resolutas ou me apetecer de novos desejos sob o afã de uma argumentação interesseira. Estive pensando apenas na extirpe de nossas muitas almas, nas tentativas infelizes e agourentas de merecer o melhor, mas sem qualquer esforço desmedido. Espero que o senhor, meu bom velhinho, compreenda que o meu quebra-cabeça – não aquele que pedi aos dez anos de idade – está incompleto e a epifânia natalina não depende só das minhas e das nossas ações, mas das tácitas intenções que ao longo do ano se perderam na mesquinhez do cotidiano. Fiquei um pouco frustrado meu caro, mas não pelas devolutas esperas dezembrinas e sim isto é mais que uma certeza pelas promessas que quebrei nos últimos trinta anos. Por isso, querido Papai Noel, justiça seja feita: desejo-te o natal mais feliz de todos os tempos, espero de coração que seu trabalho árduo seja fecundo. Este ano não precisa aparecer por aqui. Nesta felicíssima data eu não quero nada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011


Será que um dia vou amar?

Será que um dia vou amar
sem olhar no relógio ou medir tempo?
Será que um dia vou amar
sem olhar no rosto e mensurar pessoas?
Será que um dia eu vou amar
sem decidir pesando isso ou aquilo?
Será que um dia eu vou amar
sem chorar tanto ou rir quanto?
Será que um dia eu vou amar
sem pensar em contas e números?
Será que um dia eu vou amar
sem escambo ou comércio?
Será que um dia vou amar
sem nome na lista e foto na rede?
Será que um dia eu vou amar
sem precisar dizer, apenas olhar?
Será que um dia eu vou me amar
de verdade e não de mentira?
Será que um dia eu vou amar
sem enclausurar o que é sentir?
Será que amar é uma palavra pequena?
Para impressões tão insofismáveis?